O fortalecimento do El Niño pode alterar o regime de chuvas, prejudicar lavouras e elevar os custos da produção agrícola. Economistas consultados pelo Banco Central estimam que o fenômeno possa acrescentar 0,3 ponto percentual à inflação brasileira em 2026.
El Niño aumenta risco de alimentos mais caros no Brasil
O fortalecimento do El Niño aumentou a preocupação com os preços dos alimentos no Brasil durante o segundo semestre de 2026.
O fenômeno climático altera a circulação da atmosfera e a distribuição das chuvas. Dependendo de sua intensidade e duração, pode provocar excesso de precipitação em algumas regiões e períodos prolongados de calor e seca em outras.
Essas condições podem afetar lavouras, pastagens, reservatórios, transporte de mercadorias e custos de produção. O resultado pode aparecer posteriormente nos preços encontrados pelos consumidores em supermercados e feiras.
Isso não significa que todos os alimentos ficarão automaticamente mais caros. O alerta é de aumento de risco, não de uma alta garantida e uniforme.
O que está acontecendo com o El Niño em 2026?
Em junho, o Instituto Nacional de Meteorologia identificou no Oceano Pacífico Equatorial um padrão típico do El Niño, com uma extensa faixa de águas mais quentes e anomalias superiores a 2 °C próximas à costa da América do Sul.
A previsão do Instituto indicava chuvas acima da média em áreas da Região Sul e abaixo da média no centro-norte do Brasil durante o trimestre de julho, agosto e setembro. Também havia alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre.
Os modelos analisados pelo INMET apontavam probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno até, pelo menos, o início de 2027, com possibilidade elevada de um evento muito forte entre a primavera e o verão de 2026.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, também afirmou em julho que o El Niño estava se fortalecendo.
Segundo o órgão, havia 97% de probabilidade de continuidade do fenômeno até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte. A NOAA também estimava uma chance de 81% de ocorrência de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
Por que o El Niño pode encarecer os alimentos?
A agricultura depende diretamente de quantidade, distribuição e regularidade das chuvas.
Não basta chover muito durante o ano. A água precisa chegar no período adequado para o plantio, desenvolvimento e colheita de cada cultura.
Chuvas abaixo da média podem reduzir a disponibilidade de água no solo, aumentar a necessidade de irrigação e prejudicar a produtividade. Chuvas excessivas também causam problemas, como alagamentos, erosão, doenças nas plantas e dificuldade para colher ou transportar a produção.
Temperaturas muito elevadas podem acelerar a perda de umidade do solo, afetar a formação dos frutos e aumentar o consumo de água pelos animais.
Quando a produtividade cai, há menos produto disponível para atender à mesma demanda. Se a oferta diminui e o consumo permanece semelhante, os preços tendem a sofrer pressão.
O impacto não aparece imediatamente
Uma mudança climática não costuma chegar ao supermercado no mesmo dia.
Existe um intervalo entre o problema na lavoura e a alteração do preço ao consumidor.
Primeiro, o clima afeta o plantio, o desenvolvimento ou a colheita. Depois, produtores, distribuidores, indústrias e varejistas ajustam estoques, contratos e custos.
Alguns produtos podem reagir rapidamente, principalmente frutas, verduras e legumes. Outros podem demorar meses porque possuem ciclos produtivos mais longos ou estoques capazes de absorver temporariamente a queda da produção.
É por isso que parte dos efeitos do El Niño de 2026 pode aparecer com mais força somente em 2027.
Quanto o El Niño pode acrescentar à inflação?
No Questionário Pré-Copom de junho, o Banco Central perguntou a aproximadamente 100 analistas quanto o El Niño poderia acrescentar à inflação brasileira.
A estimativa mediana foi de 0,3 ponto percentual em 2026, dos quais 0,2 ponto já havia sido incorporado às projeções dos participantes.
Para 2027, a estimativa mediana foi de 0,4 ponto percentual, mas apenas 0,2 ponto havia sido considerado nas previsões naquele momento.
A diferença entre porcentagem e ponto percentual precisa ficar clara.
Caso a inflação projetada fosse de 4,8%, um impacto adicional de 0,3 ponto percentual poderia levá-la para 5,1%. Isso não significaria que os preços subiram mais 30%, mas que a taxa de inflação aumentou de 4,8% para 5,1%.
Essas estimativas não são garantias. O resultado dependerá da intensidade real do fenômeno, das regiões atingidas, das culturas afetadas e da capacidade de produtores e empresas de compensarem perdas.
Quais alimentos podem ser afetados?
Não existe uma lista definitiva porque o impacto depende de onde ocorrerão os maiores desvios de chuva e temperatura.
Produtos agrícolas sensíveis ao clima podem apresentar maior volatilidade. Frutas, verduras e legumes costumam reagir mais rapidamente porque possuem ciclos curtos, são perecíveis e dependem de colheitas frequentes.
Culturas como café, açúcar e frutas cítricas também foram apontadas por economistas como vulneráveis às mudanças de chuva associadas ao fenômeno.
O impacto pode chegar ainda à produção de leite e carne. Pastagens prejudicadas pelo calor ou pela falta de água aumentam a necessidade de suplementação alimentar para os animais, elevando o custo dos produtores.
O efeito final, entretanto, não é igual em todo o país. Uma cultura prejudicada em uma região pode ter boa produção em outra, reduzindo a pressão sobre a oferta nacional.
Arroz e feijão necessariamente ficarão mais caros?
Não necessariamente.
Mesmo produtos básicos dependem de vários fatores além do clima:
- tamanho da área plantada;
- produtividade da safra;
- estoques disponíveis;
- importações e exportações;
- preço dos fertilizantes;
- custo dos combustíveis;
- taxa de câmbio;
- transporte e armazenamento.
O El Niño aumenta a incerteza, mas não permite afirmar antecipadamente qual será o preço de cada alimento.
O governo elevou sua projeção para a inflação de 2026 de 4,5% para 5,1% em julho. O Ministério da Fazenda citou pressões de oferta sobre alimentos e aumentos acima dos padrões históricos em produtos como leite, arroz e feijão. Isso reforça a preocupação, mas não prova que todas essas altas tenham sido provocadas exclusivamente pelo El Niño.
Por que frutas e verduras variam tanto?
Alimentos in natura apresentam oscilações maiores porque sua produção e conservação são mais sensíveis.
Uma chuva intensa pode destruir parte de uma plantação próxima da colheita. Uma onda de calor pode acelerar o amadurecimento e aumentar as perdas durante o transporte.
Como esses alimentos não podem ser armazenados por períodos muito longos, uma redução da oferta costuma aparecer rapidamente no varejo.
O movimento contrário também acontece. Uma colheita favorável pode aumentar a oferta e derrubar os preços em poucas semanas.
Isso explica por que tomate, batata, cebola, frutas e verduras podem registrar altas expressivas em um mês e quedas no seguinte.
O preço pode subir mesmo sem faltar alimento?
Sim.
A produção não precisa desaparecer para que os preços aumentem.
Se o agricultor precisar gastar mais com irrigação, energia, defensivos, ração ou recuperação da lavoura, parte desse custo pode ser incorporada ao preço.
Problemas nas estradas, enchentes e interrupções logísticas também podem elevar o frete. Em alguns casos, a mercadoria existe, mas custa mais para ser retirada da propriedade e levada aos centros de distribuição.
Também pode ocorrer uma antecipação de preços quando empresas esperam uma oferta menor nos meses seguintes. Esse movimento depende dos contratos e do funcionamento de cada mercado.
El Niño também pode afetar a conta de energia?
Existe essa possibilidade.
Chuvas abaixo da média podem reduzir o nível de rios e reservatórios utilizados na geração hidrelétrica. Quando a produção de energia mais barata diminui, pode ser necessário ampliar o uso de fontes mais caras.
Por outro lado, chuvas excessivas em determinadas regiões podem melhorar alguns reservatórios, mas causar enchentes, interrupções e danos à infraestrutura.
O efeito depende de onde a chuva ocorre e de sua capacidade de alcançar os reservatórios relevantes. Chover muito em uma região não compensa automaticamente a falta de água em outra.
O El Niño pode manter os juros altos?
Caso o fenômeno provoque uma alta persistente dos alimentos, ele pode dificultar o trabalho do Banco Central para levar a inflação de volta à meta.
Os bancos centrais normalmente evitam reagir de maneira exagerada a aumentos temporários provocados por clima ou problemas de oferta. Elevar os juros não faz chover e não recupera uma lavoura perdida.
O problema aparece quando o choque deixa de ser temporário.
Se empresas começam a reajustar outros preços, trabalhadores passam a exigir salários maiores e as expectativas de inflação pioram, o aumento dos alimentos pode se espalhar pela economia.
Esse risco pode levar o Banco Central a reduzir a Selic mais lentamente ou manter os juros elevados por mais tempo.
Como o consumidor deve se preparar?
Entrar em pânico e encher a despensa não é planejamento. É apenas trocar um risco futuro por um gasto imediato e possivelmente desnecessário.
A resposta mais racional é acompanhar os produtos que realmente pesam no orçamento da família.
O consumidor pode registrar os preços dos itens comprados com frequência e identificar quais aumentaram de forma persistente. Também deve comparar supermercados, feiras, atacarejos e marcas alternativas.
Frutas, verduras e legumes da estação costumam oferecer melhores condições porque apresentam maior disponibilidade naquele período.
Substituições também ajudam. Quando um alimento aumenta muito, pode ser possível trocá-lo temporariamente por outro com função semelhante na alimentação.
A comparação deve considerar o preço por quilo, litro ou unidade, e não apenas o valor total da embalagem.
Comprar grandes quantidades é uma boa estratégia?
Somente quando existe consumo real, capacidade de armazenamento e vantagem comprovada no preço.
Comprar muito por medo de uma alta futura pode gerar desperdício, principalmente com alimentos perecíveis.
Promoções também podem ser enganosas. Uma embalagem maior não é automaticamente mais barata, e um desconto perde sentido quando parte do produto vence ou estraga antes de ser utilizada.
Para itens não perecíveis consumidos regularmente, manter um pequeno estoque pode reduzir idas desnecessárias ao mercado. Transformar a casa em depósito, porém, compromete o orçamento e não protege contra a inflação de maneira eficiente.
O que fazer no orçamento familiar?
O primeiro passo é separar alimentação das demais despesas variáveis.
Quando supermercado, delivery, refeições fora de casa e pequenas compras ficam misturados, torna-se difícil identificar onde ocorreu o aumento.
Também é necessário prever alguma margem para variações. Um orçamento que utiliza 100% da renda sem nenhuma folga quebra diante do primeiro aumento de alimentos, energia ou transporte.
Caso os preços subam, o ajuste deve começar por desperdícios e compras pouco utilizadas, não pela retirada indiscriminada de alimentos importantes.
Usar o cartão de crédito para complementar o supermercado todos os meses não resolve a perda de poder de compra. Apenas transfere o problema para a próxima fatura.
O risco é real, mas a alta não é inevitável
O El Niño de 2026 está se fortalecendo e pode provocar alterações relevantes nas chuvas e temperaturas.
Mesmo assim, fenômenos climáticos fortes não produzem exatamente os mesmos efeitos em todas as regiões. A própria NOAA ressalta que nem mesmo os eventos mais intensos garantem a ocorrência do impacto climático típico em todos os locais.
A produção agrícola também pode responder com irrigação, mudança do calendário de plantio, utilização de estoques, importações e aumento da produção em áreas menos afetadas.
Portanto, a conclusão correta não é que todos os alimentos ficarão mais caros. É que o risco de perdas agrícolas, volatilidade e pressão sobre a inflação aumentou.
Conclusão
O El Niño adicionou uma nova fonte de incerteza ao custo de vida brasileiro.
Economistas estimam que o fenômeno possa acrescentar 0,3 ponto percentual à inflação de 2026 e 0,4 ponto em 2027. Os alimentos devem ser um dos principais canais de transmissão desse impacto.
A intensidade real dependerá do comportamento das chuvas, das culturas atingidas e da resposta da produção agrícola.
Para as famílias, a preparação mais eficiente não é estocar produtos ou tentar adivinhar qual alimento subirá. É acompanhar preços, reduzir desperdícios, fazer substituições e manter alguma margem no orçamento para absorver variações.
Fontes
- Banco Central do Brasil — Relatório de Política Monetária de junho de 2026: estimativas do Questionário Pré-Copom sobre o impacto do El Niño na inflação de 2026 e 2027.
- Instituto Nacional de Meteorologia — El Niño 2026: monitoramento do fenômeno, previsão de chuvas, temperaturas e possíveis impactos no Brasil.
- NOAA Climate Prediction Center — Diagnóstico do ENSO de julho de 2026: fortalecimento, duração e probabilidade de um El Niño muito forte.
- Reuters — Economistas avaliam impacto do El Niño na inflação brasileira: riscos para alimentos e projeções levantadas pelo Banco Central.
- Reuters — Governo eleva previsão de inflação para 2026: pressões de oferta sobre alimentos e nova projeção oficial.