A escalada do conflito no Oriente Médio levou o petróleo Brent novamente para acima de US$ 100 por barril. No Brasil, gasolina e diesel ainda não refletiram integralmente essa alta, mas o risco permanece devido às importações, ao câmbio e aos custos de transporte.
Conflito com o Irã volta a pressionar petróleo e ameaça preço dos combustíveis
A intensificação do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã voltou a provocar forte instabilidade no mercado internacional de petróleo.
Em 24 de julho de 2026, o petróleo Brent, utilizado como referência internacional, superou novamente os US$ 100 por barril depois de subir aproximadamente 7% em uma única sessão.
O movimento ocorreu após ataques contra navios petroleiros sauditas no Mar Vermelho e novas ameaças às principais rotas utilizadas para transportar petróleo do Oriente Médio.
Para o Brasil, isso representa risco de aumento no preço da gasolina, do diesel, dos fretes e de diversos produtos. Mas a alta do petróleo não é repassada automaticamente ou na mesma proporção para os postos.
Por que o conflito afeta o preço do petróleo?
O Oriente Médio concentra alguns dos maiores produtores e exportadores de petróleo do mundo.
Grande parte desse petróleo precisa atravessar rotas marítimas vulneráveis, especialmente o Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho.
Aproximadamente um quinto do fornecimento mundial de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz. Qualquer bloqueio, ataque a embarcações ou redução no fluxo dessa região pode retirar milhões de barris do mercado internacional.
Quando existe a possibilidade de interrupção, compradores e investidores começam a pagar mais pelo petróleo mesmo antes de ocorrer uma escassez real.
O preço, portanto, não reage apenas à quantidade disponível naquele momento. Ele também incorpora o risco de que o fornecimento seja interrompido nos dias ou meses seguintes.
O petróleo voltou a passar de US$ 100
O preço do Brent apresentou forte volatilidade desde o início do conflito, no fim de fevereiro.
A cotação chegou a atingir aproximadamente US$ 126 por barril, mas recuou para perto de US$ 70 no começo de julho após uma redução temporária das tensões e a retomada parcial do transporte pelo Estreito de Ormuz.
A trégua não durou.
Em 21 de julho, o Brent fechou a US$ 91,01 por barril, maior cotação em cinco semanas. Três dias depois, novos ataques contra petroleiros sauditas fizeram o preço avançar cerca de 7% e superar novamente US$ 100.
Em julho, a valorização acumulada já se aproximava de 40%.
Por que o petróleo não subiu ainda mais?
No início da guerra, algumas projeções indicavam que o petróleo poderia alcançar US$ 150 ou até US$ 200 por barril.
Isso não aconteceu porque outros fatores compensaram parcialmente a redução da oferta.
A China diminuiu suas importações de petróleo, enquanto os Estados Unidos elevaram sua produção para níveis recordes. Também houve uma liberação coordenada de aproximadamente 400 milhões de barris de reservas estratégicas.
A Arábia Saudita ampliou os embarques pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho, para reduzir sua dependência do Estreito de Ormuz.
Além disso, ainda existia petróleo disponível no mercado físico. Isso evitou uma escassez imediata e limitou a alta das cotações.
O problema é que essas alternativas não são ilimitadas. Uma guerra mais longa pode reduzir estoques, comprometer outras rotas e provocar uma pressão muito maior sobre os preços.
O combustível ficará mais caro no Brasil?
Existe risco, mas não é possível afirmar que gasolina e diesel subirão imediatamente.
O preço cobrado nos postos brasileiros depende de vários componentes:
- valor do petróleo e dos derivados;
- cotação do dólar;
- preço cobrado pelas refinarias e importadores;
- mistura de etanol ou biodiesel;
- impostos federais e estaduais;
- custos de distribuição;
- margem dos postos;
- políticas de subvenção do governo.
A Petrobras também afirma que sua estratégia evita repassar automaticamente para o mercado interno toda oscilação temporária do petróleo e do câmbio.
Isso significa que uma alta de 7% no Brent não produz necessariamente um reajuste de 7% na bomba de combustível.
Gasolina e diesel ainda estavam relativamente estáveis
Na semana de 12 a 18 de julho, antes da nova escalada do conflito, o preço médio nacional da gasolina comum permaneceu em R$ 6,58 por litro.
O diesel S10 apresentou uma pequena queda semanal de 0,43%, ficando em R$ 6,94 por litro.
Apesar da redução semanal, o diesel acumulava alta de aproximadamente 15% em 12 meses. A gasolina estava 5,79% mais cara na mesma comparação.
Esses valores não refletem completamente o salto mais recente do petróleo, ocorrido depois do período pesquisado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.
Governo prorrogou o subsídio da gasolina
Diante da nova alta do petróleo, o governo federal decidiu prorrogar por mais 30 dias uma subvenção de R$ 0,44 por litro de gasolina.
A medida, que terminaria em 25 de julho, foi estendida a partir de 26 de julho.
Segundo o Ministério da Fazenda, o custo seria financiado pelo aumento das receitas públicas provocado pelo próprio petróleo mais caro, incluindo royalties.
Para o diesel, continuava em vigor uma subvenção de R$ 1,12 por litro.
Essas medidas reduzem ou atrasam o impacto para o consumidor, mas não eliminam o custo. O valor é pago pelo governo e, portanto, utiliza recursos públicos.
O Brasil produz petróleo. Por que ainda é afetado?
Produzir muito petróleo não significa ser independente de todos os combustíveis.
O Brasil exporta grande quantidade de petróleo bruto, mas também importa derivados, especialmente diesel, porque a produção das refinarias nacionais não atende integralmente ao consumo interno.
Aproximadamente 30% do diesel utilizado no país é importado. Dessa forma, o preço internacional do combustível e o dólar continuam tendo grande influência no mercado brasileiro.
O país pode ganhar mais com exportações, royalties e lucros das empresas petrolíferas quando o petróleo sobe. Ao mesmo tempo, consumidores, transportadoras, agricultores e empresas podem enfrentar custos maiores.
Não existe contradição: setores diferentes ganham e perdem com a mesma alta.
Por que o diesel é mais preocupante?
O diesel movimenta caminhões, máquinas agrícolas, ônibus, equipamentos industriais e grande parte do transporte de mercadorias.
Quando o diesel fica mais caro, o impacto não se limita ao motorista que abastece seu veículo.
Transportadoras podem aumentar o preço do frete. Produtores rurais gastam mais para operar máquinas e transportar a produção. Empresas enfrentam custos maiores para receber matérias-primas e entregar produtos.
Parte dessas despesas pode ser repassada para alimentos, materiais de construção, roupas, eletrodomésticos e outros itens.
Por isso, uma alta persistente no diesel tende a se espalhar pela economia.
Agricultura e alimentos também estão ameaçados
A agricultura brasileira utiliza grandes quantidades de diesel durante o plantio, a colheita e o transporte da produção.
No início do conflito, produtores já demonstravam preocupação com a elevação do custo do combustível durante a colheita da soja e o plantio do milho.
Além do diesel, o conflito também ameaça o mercado de fertilizantes.
O Estreito de Ormuz transporta cerca de 30% dos fertilizantes comercializados internacionalmente. A região do Golfo é uma importante produtora de ureia e amônia.
Interrupções nos embarques provocaram aumentos de 30% a 40% em alguns fertilizantes. Se os produtores reduzirem sua utilização devido ao preço, a produtividade das lavouras pode cair e pressionar os alimentos posteriormente.
Petróleo caro também pressiona a inflação
Combustíveis possuem efeitos diretos e indiretos sobre a inflação.
O efeito direto aparece quando gasolina, diesel, gás de cozinha ou passagens ficam mais caros.
O efeito indireto ocorre quando empresas repassam para os consumidores o aumento de transporte, energia, fertilizantes, embalagens e matérias-primas.
Uma alta persistente do petróleo também pode dificultar a redução dos juros.
Caso o Banco Central entenda que os combustíveis estão contaminando outros preços e elevando as expectativas de inflação, pode manter a Selic elevada por mais tempo.
Assim, um conflito distante pode atingir o consumidor brasileiro por vários caminhos: combustível, supermercado, frete, crédito e juros.
A gasolina pode subir mesmo com o subsídio?
Sim.
A subvenção reduz parte da pressão, mas não estabelece um preço fixo para o combustível.
Caso o petróleo e o dólar continuem subindo, o custo adicional pode superar o valor compensado pelo governo.
Além disso, alterações nas margens de distribuição, impostos estaduais e preços do etanol também podem modificar o valor final.
O motorista não deve interpretar o subsídio como garantia de que a gasolina permanecerá em R$ 6,58.
Vale a pena estocar combustível?
Não.
Combustível é inflamável, exige armazenamento adequado e não deve ser acumulado em residências ou recipientes improvisados.
Além do risco de incêndio, comprar grandes quantidades pode violar regras de segurança e causar desperdício.
A estratégia racional é reduzir deslocamentos desnecessários, manter o veículo regulado, calibrar corretamente os pneus e comparar os preços dos postos.
Também é necessário desconfiar de combustível muito abaixo do preço médio. Uma economia pequena não compensa o risco de adulteração ou de problemas mecânicos.
Como reduzir o impacto no orçamento?
O primeiro passo é calcular quanto realmente está sendo gasto com transporte.
Não basta observar o preço por litro. É necessário registrar abastecimentos, quilometragem, pedágios, estacionamento e manutenção.
Motoristas podem agrupar compromissos na mesma região, evitar trajetos desnecessários e comparar gasolina e etanol quando o veículo for flex.
Quem depende de aplicativos ou transporte público também precisa acompanhar reajustes, porque o aumento do combustível pode chegar às tarifas e às corridas.
Empresas e trabalhadores autônomos devem separar o combustível utilizado profissionalmente do gasto pessoal. Misturar tudo esconde o custo real da atividade.
O que observar nos próximos meses?
Os principais sinais são:
- duração e intensidade do conflito;
- tráfego pelo Estreito de Ormuz;
- segurança das rotas do Mar Vermelho;
- cotação do petróleo Brent;
- valor do dólar;
- decisões da Petrobras;
- duração dos subsídios;
- preços semanais divulgados pela ANP.
Olhar apenas para a cotação do petróleo é insuficiente. O impacto no posto depende da combinação entre todos esses fatores.
Conclusão
O conflito com o Irã voltou a colocar o petróleo e os combustíveis sob forte pressão.
O Brent superou novamente US$ 100 por barril, enquanto ataques no Mar Vermelho e ameaças ao Estreito de Ormuz aumentaram o risco de interrupção do fornecimento mundial.
No Brasil, gasolina e diesel ainda não refletiram integralmente a nova alta. Subsídios e a política de preços da Petrobras ajudam a conter o repasse imediato.
Isso não significa que o risco desapareceu.
Caso o conflito se prolongue, o petróleo continue subindo e as rotas de transporte sejam comprometidas, o impacto poderá chegar aos postos, aos fretes, aos alimentos e à inflação.
Fontes
- Reuters — Petróleo supera US$ 100 após novos ataques no Oriente Médio: alta das cotações, riscos ao Mar Vermelho e preocupação com a inflação mundial.
- Reuters — Por que o petróleo não subiu ainda mais durante o conflito: produção dos Estados Unidos, queda da demanda chinesa, reservas estratégicas e retomada parcial dos fluxos.
- Reuters — Petróleo atinge maior cotação em cinco semanas: ataques entre Estados Unidos e Irã e ameaça de bloqueio naval pelos Houthis.
- Reuters — Brasil prorroga subvenção para gasolina: extensão do benefício de R$ 0,44 por litro e manutenção da subvenção do diesel.
- Agência Nacional do Petróleo — Síntese semanal de 12 a 18 de julho: preços médios da gasolina, do diesel, do etanol e do gás de cozinha.
- Petrobras — Subvenção e estratégia de preços do diesel: valor do benefício e política para evitar repasses automáticos de oscilações temporárias.
- Reuters — Impacto do diesel sobre o agronegócio brasileiro: dependência de importações e custos para produtores rurais.
- Reuters — Conflito ameaça fertilizantes e preços dos alimentos: importância do Estreito de Ormuz para o comércio mundial de fertilizantes.